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5 de mar. de 2011

O caos no M' Boi Mirim, visto ao vivo

Na última segunda-feira, troquei de emprego e comecei a trabalhar bastante longe daqui, próximo à represa de Guarapiranga. Como moro na zona leste e a Guarapiranga fica na zona sul, todos os dias são 35km a percorrer só para ir. Dois ônibus, dois metrôs, três horas (depois ainda tem uma hora e meia até a faculdade, aulas e mais outra hora e meia para chegar em casa, totalizando 70km e seis horas no transporte público). Ufa!

Para quem não é daqui, ou é, mas não conhece a região, vou tentar explicar. O centro geográfico da cidade é a Praça da Sé. De lá até a Avenida Guarapiranga são 21km. Para chegar lá, saindo do centro e indo rumo ao sudoeste da cidade, passa-se pela região da Avenida Paulista, do Ibirapuera, de Moema, do valorizado Aeroporto de Congonhas, mais um tanto e passa-se por Santo Amaro, pela linha 5 - lilás do Metrô e depois anda-se mais uns 15 minutos de ônibus.

Naquela região há um corredor de ônibus que passa pela Avenida Guarapiranga e Estrada do M' Boi Mirim. Estas são as avenidas que permitem o acesso de moradores daquela região (ou de bairros mais distantes) à Marginal Pinheiros. Acontece que a quantidade de ônibus que passa por lá é tão grande que o corredor trava por completo, os ônibus são desligados e as pessoas tem que descer e andar a pé até Santo Amaro (creio que deve dar algo como 2h a pé dali), para tentar acessar o centro da capital. Por isso, os moradores já protestaram inúmeras vezes, como é mostrado nos veículos de comunicação. Na última sexta, dia 4, houve mais um protesto. Eu estava lá e relato.

Meu ônibus parou na Ponte do Socorro, sobre a Marginal Pinheiros, a cerca de 4km do meu local de trabalho. Imediatamente os passageiros desceram. Desci também e, com espírito jornalístico, comecei a fazer perguntas para a população local. Logo descobri que se tratava de uma manifestação que interditava a pista sentido bairro e também a sentido centro. Vi pessoas desesperadas ligando para o trabalho, trabalhadores que andavam fazia duas horas e que ainda estavam a muito tempo de caminhada de uma região em que fosse possível pegar outras linhas de ônibus. Após quarenta minutos de caminhada apressada, chego ao protesto, enquanto podia ouvir gritos de indignação ecoando pelas ruas. Apesar da forte presença policial, era uma manifestação sem violência, contra a péssima situação do transporte público na região.

O desfecho? Depois de cinco horas interditando a avenida e cerca de duas mil pessoas protestando, os moradores ouviram do prefeito Gilberto Kassab que a solução virá apenas daqui oito anos, com a construção de um monotrilho integrado à linha do Metrô. Pelo que entendi, integrado à linha 5, que anda com as obras praticamente paradas e que ainda tardará muitos anos para chegar às estações Santa Cruz e Chácara Klabin e enfim ser conectada ao resto da rede metroviária.

Ainda assim, creio que monotrilho não é a solução mais adequada. Talvez seria a extensão da linha lilás na outra extremidade, do Capão Redondo à região do Jardim Ângela. Logo é 2012, ano de eleições. Os candidatos passarão por lá, como passarão por aqui, fazendo mil promessas. Aparecerão promessas de corredor de ônibus aqui, linhas de monotrilho ali (aliás, é a nova moda dos políticos locais. Só para constar, nenhum saiu do papel e nem está em obras), linhas de metrô milagrosas conectando a cidade inteira... e dependendo do canditado, não passará de promessa, mesmo. Enquanto isso, o povo, que paga impostos e R$ 3 em uma única passagem de ônibus, segue sofrendo. Aqui vão duas fotos tiradas por mim, com celular (por isso a má qualidade. Ampliem para ver melhor e com mais detalhes). Embora dê para ver de longe o protesto e parte da quilométrica fila de ônibus, não retrata nem parte do sofrimento da população. Por último, questiono: e se fossem moradores de alto poder aquisitivo protestando, seriam tratados com o mesmo descaso? A solução hipotética só chegaria no mínimo em 2019?

O protesto contra as péssimas condições do transporte público
Foto: Fábio De Nittis

Fila interminável de ônibus na Avenida Guarapiranga
Foto: Fábio De Nittis

3 de jan. de 2011

+ 600% em 17 anos


Tarifa de ônibus sobe mais do que a inflação em São Paulo: vai custar R$ 3,00 (Foto: Portal R7)


Foi confirmado no final do mês passado que, mais uma vez, a tarifa do ônibus irá subir em São Paulo. De R$ 2,70, os paulistanos agora pagarão um valor de R$ 3,00 pela passagem (a integração ônibus-metrô do Bilhete Único sobe de R$ 4,07 para R$ 4,29). O aumento, de 11%, foi quase o dobro da inflação na capital paulista desde o último aumento (no ano passado), de 5,8%. Segundo o prefeito Gilberto Kassab, as passagens foram reajustadas dada a necessidade da prefeitura de economizar o dinheiro repassado ao transporte, para investi-lo em outras áreas.

E nesta segunda e também amanhã, terça-feira, a corrida é grande aos postos de recarga. Como o reajuste acontece na próxima quarta-feira, quem recarregar até amanhã continuará pagando a tarifa antiga, de R$ 2,70, até que os crédios expirem.

Vale destacar que, de acordo com uma tabela do Terra, que pode ser encontrada clicando aqui, a tarifa de ônibus na capital subiu 600% desde a implantação do real, em 1994. Em 1994, a passagem de ônibus custava R$ 0,50. Quatro anos depois, já era o dobro. Em 2001, já era quase o triplo. Em 2006, a passagem já era bem mais que o quádruplo. Em 2010 a passagem passou a ser mais de cinco vezes o que era em 1994, e em 2011, com o valor de R$ 3,00, o aumento em relação há dezessete anos atrás chega a 600%, ou seis vezes mais.

Com relação ao metrô, o aumento foi menor, mas também foi bastante expressivo, de mais de 400% (isso até ano passado), como você pode ver clicando aqui. O metrô também deve reajustar o preço da passagem, provavelmente em fevereiro, mas o valor ainda não foi divulgado.

Ficam as questões: o salário dos trabalhadores subiu 400 a 600% em 17 anos? A qualidade do transporte coletivo paulistano subiu entre 400 e 600%? Que prefeito ou governador terá a nobre atitude de congelar ou baixar a tarifa, em benefício do trabalhador? Acho que as duas primeiras estão fáceis de responder, mas quanto à última, infelizmente sigo aguardando, sem muitas esperanças.