30 de out de 2010

Argentina em prantos


Comovido pela morte do ex-presidente, casal argentino deseja força a Cristina Kirchner, sua esposa (Foto: Reuters)

Argentina em prantos

Morte do ex-presidente Néstor Kirchner para o país. Milhares de argentinos vão às ruas para se despedir

 
Era uma quarta-feira ensolarada de primavera em Buenos Aires, após o longo e frio inverno argentino. O governo federal havia decretado feriado nacional, para que o Censo 2010 fosse realizado por 650 mil recenseadores em um único dia.

Mas ainda era meio da manhã quando uma notícia abalou o país. Morre Néstor Kirchner, ex-presidente do país (governou entre 2003 e 2007) e marido da atual presidenta Cristina Fernández de Kirchner.

Kirchner se sentiu mal em El Calafate, na Patagônia argentina, por volta das 7h30 (8h30 no horário de Brasília). Rapidamente foi levado ao hospital, mas não resistiu: cerca de duas horas depois, faleceu vítima de uma parada cardíaca, aos 60 anos.

Em questão de minutos, a notícia tomou conta da Argentina. Por ser feriado e o comércio estar fechado para a realização do censo, muitos argentinos ficaram em casa, com os olhos permanentemente atentos à televisão e às notícias que chegavam. Outra parte da população já se deslocava rumo à região da Plaza de Mayo, no centro da cidade, onde fica a Casa Rosada, sede do governo argentino, em busca de maiores informações.

Por volta de 1h30 (2h30 em Brasília) de quinta, o corpo chegou a Buenos Aires e foi levado à Casa Rosada. Durante toda a quinta, milhares de argentinos foram se despedir do político, após uma espera que chegava a durar dez horas sob o sol. O metrô rodou de graça, para facilitar o acesso da população à Plaza de Mayo.

Ainda de manhã, a presidenta Cristina Kirchner chegou. Ao longo do dia, ela recebeu os pêsames de políticos de todas as partes da América Latina, como dos presidentes do Equador (Rafael Correa), Brasil (Luís Inácio Lula da Silva), Venezuela (Hugo Chávez), Uruguai (José Mujica) e Chile (Sebastian Piñera), entre outros.

Na manhã de sexta-feira, Buenos Aires parou para o trajeto do corpo da Casa Rosada até o Aeroparque, aeroporto no centro da capital argentina. À noite, o corpo chegou até Río Gallegos, onde foi dado o último adeus.

Milhares de pessoas aguardam para se despedir de Néstor. Espera chegou a dez horas (Foto: EFE)

 

Problemas de saúde

Néstor Kirchner já havia se submetido a duas cirurgias durante este ano por problemas cardíacos. A primeira foi no início de fevereiro, quando foi operado para desobstrução da carótida direita. Mais recentemente, foi submetido a uma angioplastia, em setembro. Em ambas as cirurgias, a recuperação do ex-presidente foi rápida e, apesar de algumas recomendações médicas de que não poderia fazer esforço excessivo, Néstor Kirchner estava bem. Isso tornou a notícia ainda mais trágica e inesperada, já que o político não estava internado.

 
Biografia

Néstor Kirchner nasceu em 1950 em Río Gallegos, na província de Santa Cruz, no sul da Argentina. Na década de 70, entra no Partido Justicialista - fundado por Juan Domingo Perón - quando era líder estudantil na Universidade Nacional. Em 1975, casa-se com Cristina Kirchner, colega do curso de direito, com quem tem seus filhos, Máximo e Florência. Em 1987, é eleito prefeito de Río Gallegos e em 1991, governador de Santa Cruz, província que governou até 2003 (foram três mandatos consecutivos). De 2003 a 2007, é presidente da Argentina, e, em 2007, passa a presidência à sua mulher, Cristina. Em 2010, é eleito secretário geral da Unasul (União de Nações Sul-Americanas)

 
Período como presidente da Argentina

Peronista e com um governo voltado à população mais carente, Kirchner assumiu durante um dos períodos mais complicados da história argentina. Após uma grave crise econômica que afetou o país no final da década de 90 e início da década de 2000 e sucessão de presidentes, a Argentina chegava ao fim da crise com nível de pobreza atingindo 49,7%. O PIB (Produto Interno Bruto – soma das riquezas produzidas por um país) havia caído 3,4% em 1999, 0,8% em 2000, 4,4% em 2001 e 10,9% em 2002. Kirchner consegue alavancar a economia argentina, e, durante seu governo, o país cresce a taxas entre 8,5% e 9,2% ao ano. Mais do que isso, consegue levantar a autoestima e confiança dos argentinos no país.

Entretanto, recebeu duras críticas da oposição, sob acusação de manipulação dos índices oficiais, que são medidos pelo Indec. O principal índice que teria sido manipulado seria o da inflação. De acordo com dados oficiais, ela estaria rondando valores de cerca de 7 a 9% ao ano durante os últimos anos, enquanto que, de acordo com organismos privados, estaria acima de 20% ao ano.

 
O futuro do kircherismo

Há fortes divergências entre os especialistas em relação ao que deve acontecer com o kircherismo, especialmente devido à forte divisão na sociedade argentina entre os que apoiam e não apoiam o governo.

Por um lado, a popularidade da presidenta Cristina Kirchner está baixa (índice em torno de 35%), e Néstor tinha grande influência sobre o governo de Cristina. Isso leva muitos especialistas a dizer que o kircherismo está ameaçado já nas próximas eleições, que serão realizadas no ano que vem.

Por outro lado, Néstor Kirchner era considerado o candidato mais forte às eleições presidenciais. Por isso, alguns especialistas em política afirmam que a morte dele poderia aumentar fortemente a popularidade de Cristina. Dessa forma, ela poderia inclusive se tornar uma política como Evita Perón, líder política de grande carisma, que foi primeira-dama da Argentina.

(Texto escrito por mim com base em jornais e sites de notícias, para trabalho da faculdade)

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